Um relatório da organização ambientalista WWF conclui que, se nada for feito, a Terra poderá perder uma área florestal equivalente a metade da União Europeia.


Treze milhões de hectares de florestas naturais ou seminaturais perdem-se anualmente em todo o mundo devido à desflorestação e à degradação florestal.

É uma área superior à de Portugal e se nada for feito para travar este processo, 230 milhões de hectares (2,3 milhões de km2 ou 50% da área da UE) poderão ser atingidos por esta "praga" até 2050, conclui o novo relatório 'Florestas Vivas' do World Wide Fund (WWF). O primeiro capítulo foi divulgado esta semana, no momento em que a conhecida organização ambientalista celebra 50 anos de existência.

O relatório surge quando foi encerrada em Jacarta, capital da Indonésia, a Conferência Global de Negócios para o Ambiente (Business 4 Environment), que colocou líderes empresariais e políticos de todo o mundo a discutir temas como os investimentos verdes, as tecnologias limpas e as estratégias de crescimento sustentável.

O documento propõe que os responsáveis políticos e as empresas se unam em torno de uma meta de desflorestação e degradação florestal zero (ZNDD-Zero Net Deforestation and Degradation) até 2020, para evitar as alterações climáticas irreversíveis e reduzir efetivamente a perda de biodiversidade.

Floresta precisa de governação e incentivos económicos

"Estamos a desperdiçar florestas por não conseguirmos resolver questões políticas vitais, como a governação e os incentivos económicos para mantermos a floresta viva", afirma Rod Taylor.

O diretor do Programa Florestas da WWF Internacional acrescenta que uma melhor governação e incentivos económicos adequados "permitirão retirar mais privilégios das florestas e obter um uso mais produtivo da terra já degradada", o que garantiria terras agrícolas suficientes para as necessidades futuras e florestas bem geridas para responder à expansão da procura mundial de madeira, alimentos e energia sem provocar a sua destruição ou degradação.

Como salienta o relatório, "os produtos florestais são renováveis e, quando provenientes de florestas naturais e plantações bem geridas, tendem a ter uma menor pegada ecológica do que alternativas provenientes de fontes fósseis, como o aço e o plástico".


Há cerca de dois anos, um estudo internacional publicado na revista "Science" e liderado pela investigadora portuguesa Ana Rodrigues, do Instituto Superior Técnico, concluía que a estratégia de desenvolvimento para a Amazónia, a maior floresta tropical do mundo, é inadequada porque "não parece resultar numa melhoria sustentada da qualidade de vida das populações".

A equipa de Ana Rodrigues investigou a variação nos níveis de educação, esperança de vida e rendimento económico entre populações de regiões com a floresta intacta, regiões em plena fronteira de desflorestação e regiões já desflorestadas.

E concluiu que "a qualidade de vida das populações aumenta rapidamente com a chegada dessa fronteira, mas esta melhoria é transitória". Na prática, "os indivíduos nas zonas já desflorestadas têm uma qualidade de vida tão baixa como aqueles que vivem em zonas remotas no centro da Amazónia".

Ana Rodrigues explicava então que a substituição das florestas por pastagens e terrenos agrícolas "é o preço a pagar pelo desenvolvimento económico", mas os resultados obtidos no estudo indicam "que uma coisa não leva necessariamente à outra".

O que significa que o desafio para os governos é encontrar um modelo de desenvolvimento que resulte numa melhoria real da qualidade de vida das populações, "mas sem sacrificar o património natural da Amazónia".

Portugal: 40% do território ocupado por florestas.

Em Portugal, quase 40% do território é ocupado por florestas, na sua maioria associadas às monoculturas do pinheiro-bravo e do eucalipto, mas também a montados de sobreiros e azinheiras protegidos, bem como a carvalhais autóctones sem estatuto de proteção, apesar da sua importância ecológica.

A floresta representa 12% das exportações portuguesas mas a desflorestação tem sido uma constante devido à reconversão de terras para a agricultura, construção de infraestruturas, avanço da urbanização e dos biocombustíveis e monocultura do eucalipto.

Além disso, a floresta portuguesa é ameaçada por incêndios, pragas, espécies invasoras, má gestão, abandono do mundo rural e alterações climáticas.


Expresso