Política

Se dúvidas existiam, estão desfeitas: a zona de conforto do primeiro-ministro é a zona de guerra. Onde não há espaço para meninos do coro.

28/10/10 | Miguel Coutinho



O que José Sócrates desejava, aconteceu: rebentou o dique que separava o mar voraz da política do território árido dos números. E a política inundou o debate técnico, transformando-o num ruído imperceptível e num zero absoluto.

Eis, pois, o primeiro-ministro no seu aquário preferido: o da política pura e dura, que se exerce com nervos de aço, maxilares tensos e murros na mesa. Se dúvidas existiam, estão desfeitas: a zona de conforto do primeiro-ministro é a zona de guerra. Onde não há espaço para meninos do coro. Há sete dias escrevi nesta coluna um texto intitulado: "José Sócrates não tem nada contra o leite achocolatado. Só não gosta que lhe imponham condições." E julgo que aí reside o pecado capital do PSD: a ingenuidade de que este primeiro-ministro poderia negociar. Não pode e não quer, porque a cedência - um dos pilares de qualquer negociação - não está no seu código genético. O raciocínio de Sócrates é linear e próprio do campo de batalha: ceder às condições impostas pelo PSD representaria a entronização de Passos Coelho como o defensor da classe média, de todos os contribuintes e da transparência. A esmola era demasiada e entrámos, assim, na dimensão mais conflituante da política que, sem aviso prévio, infiltrou o mundo mais conceptual da economia. O que veremos a partir de agora é do domínio da batalha naval: alguns tiros no porta-aviões, outros na água e barcos ao fundo. Talvez acabemos por ter um Orçamento que todos, com excepção do primeiro-ministro e do ministro das Finanças, consideram mau. Talvez continuemos a ter um primeiro-ministro em colisão com o mundo. E um ministro das Finanças que, depois de um ano de 2010 de absoluto descontrolo das contas públicas, promete agora ser o último guardião do objectivo orçamental. Talvez haja quem ainda acredite neles.



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