A boleia da Irlanda

Discussão em 'Economia e Finanças' iniciado por JuizDidi, Novembro 14, 2010.

  1. JuizDidi

    JuizDidi Staff Moderador Temático Membro Gold


    A boleia da Irlanda


    14/11/10 | Bruno Proença

    Durante a tarde de ontem, a imprensa internacional revelou o início das negociações entre a Irlanda e a União Europeia. Segundo contas da Reuters, os irlandeses vão pedir uma ajuda de 48 mil milhões de euros.

    Oficialmente, todos desmentem mas nestas coisas onde há fumo, há fogo. A leitura dos indicadores económicos, nomeadamente um défice orçamental acima de 30% do PIB, e a forma como os investidores estão a penalizar a dívida pública irlandesa parecem confirmar que não há outra solução. Para mais, o Governo ainda não conseguiu fechar o Orçamento do Estado para 2011. E os responsáveis de Bruxelas, incluindo Durão Barroso, já garantiram publicamente que há capacidade para ajudar a Irlanda. Perante isto, o que deve Portugal fazer? Provavelmente, o melhor é aproveitar a boleia. Esperar pelo próximo comboio pode ser pior.
    Recorrer à ajuda da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional não é bom. É um sinal de fraqueza do país, um reconhecimento da incapacidade da classe política e de um povo que não sabe tomar conta de si e produzir o suficiente para melhorar o nível de vida. E já foi dito várias vezes mas convém não esquecer, Portugal está nesta situação por culpa própria. Não vale a pena culpar o papão do mercado.
    No entanto, há situações em que não há outro caminho. A economia portuguesa está no fio da navalha. A emissão de dívida pública desta semana passou à tangente e dá ao País um balão de oxigénio de algumas semanas mas o aperto do financiamento vai continuar. Os juros vão manter-se altos - e podem mesmo subir mais se a Irlanda recorrer ao FMI porque Portugal passa a ser o próximo alvo dos especuladores - e as necessidades de financiamento para 2011 são muito elevadas. Só o Estado necessita de 40 mil milhões de euros. A torneira do financiamento pode mesmo fechar.
    Assim, Portugal até pode resistir mais umas semanas mas caso acabe por ter de pedir ajuda, como parece inevitável, perde poder negocial se for sozinho e ficar para último é o pior. O actual mecanismo de ajuda europeu obriga a que os Parlamentos dos vários países aprovem os empréstimos aos países em dificuldades. Merkel já avisou que não sabe se vai ter clima político para convencer os alemães para ajudarem com os seus impostos mais países desgovernados. Ou seja, o último a pedir ajuda poderá ter que aceitar um pacote de contrapartidas mais duro - leia-se um aperto do cinto ainda mais drástico - para conseguir os empréstimos da UE e FMI.
    Por muito que o Governo português faça tudo bem a partir de agora e consiga uma redução do défice como não obteve no passado, ainda assim poderá ser obrigado a recorrer à ajuda internacional porque há factores que não controla. Os dados estão lançados. Perante isto, caso se confirme os contactos irlandeses com as autoridades europeias, pedir ajuda de forma preventiva deve ser um cenário a considerar.



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