A grande mercearia

Discussão em 'Economia e Finanças' iniciado por JuizDidi, Novembro 8, 2010.

  1. JuizDidi

    JuizDidi Staff Moderador Temático Membro Gold

    A grande mercearia


    Fernando Sobral


    Não se sabe se são os dirigentes do futebol indígena que bebem influências da classe política ou se é o oposto.
    Mas, para o caso, isso pouco importa. Futebol e política em Portugal são as duas faces de uma moeda desvalorizada e falida.

    Com líderes assim é duvidoso que, alguma vez, haja respeito e confiança. O futebol português tentou transformar-se numa indústria mas transmutou-se apenas numa grande mercearia. Fala-se de activos, de acções e de engenharias financeiras mas, claro, o futebol tem apenas a ver com uma coisa: vencer. Os clubes fizeram-se para dar glórias aos adeptos e não para serem empresas geridas com bom-senso ou racionalidade. O caso mais emblemático em tudo isto é o Sporting. Desde os tempos do célebre projecto do sr. Roquette que o Sporting disse que se ia tornar num modelo de gestão moderna. Os resultados faíscam. Os prejuízos continuam a ser uma constante e a gestão, por detrás de um discurso tecnocrático, não é diferente daquela que o sr. Valentim Loureiro doou ao mundo.

    Já nem fala do divórcio anunciado entre aquilo que ia ser o modelo de negócio do Sporting (apostar numa Academia de onde, de vez em quando, sairia um sr. Cristiano Ronaldo e dois srs. Miguel Veloso que pagariam parte das despesas do futebol profissional, a exemplo do que fazem Ajax ou Lyon) e que, como é óbvio, entrou em curto-circuito. Nunca o Sporting comprou tanto jogador estrangeiro com tão pouco critério como na gestão do sr. Bettencourt. Agora, para mostrar que é um clube moderno e empreendedor, e depois de ter torrado milhões de euros em sucessivos relvados (ou ervados, se preferirmos) impróprios para jogar futebol de elite, a direcção do Sporting vai avançar para um relvado sintético. É óbvio que não estamos nos EUA, onde a cultura futebolística tarda em impor-se, ou no deserto do Sahara, onde as condições naturais não propiciam a existência de relvados. Estamos num País onde as condições naturais permitem a existência, com mais ou menos problemas, de relvados.

    Mas, para dar um ar tecnocrático e empresarial à questão, voz autorizada do Sporting já veio dizer que o relvado sintético, a prazo, será mais rentável. A justificação é hilariante. A ideia só pode vir de um génio que nunca viu um jogo de futebol na vida e que, por isso, é que tem responsabilidades num clube que pratica esse desporto. Ou seja, um gestor moderno. O futebol praticado em relvado sintético é contra-natura, atenta à integridade física dos jogadores e, acima de tudo, é um disparate. O sr. Paulo Bento é que sabe: a selecção, em Portugal, não joga em relvados sintéticos. Adeus jogos da selecção do Alvalade XXI. A gestão moderna do sr. Bettencourt rumo a um novo modelo de mercearia avança de vento em popa.




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