A travessia do deserto

Discussão em 'Economia e Finanças' iniciado por JuizDidi, Novembro 5, 2010.

  1. JuizDidi

    JuizDidi Staff Moderador Temático Membro Gold


    A travessia do deserto


    05/11/10 | Daniel Amaral




    A maior crítica que se pode fazer ao orçamento está na ausência de uma estratégia que vise o crescimento económico e a criação de emprego.

    E não faltam vozes capazes de definir este modelo: acréscimo do investimento e da produtividade, melhoria da competitividade, aposta forte nas exportações. Palmas para os seus mentores. Sugiro apenas que, antes de todo este entusiasmo, coloquem a si próprios esta pergunta: e como é que isso se faz?
    A execução deste OE-2011, já aprovado na generalidade, envolve três grandes riscos: o risco de uma entrada em recessão, que só o Governo não quer ver; o risco de incumprimento do défice, com esta recessão implícita e as "ajudas" do PSD; e o risco de colapso do Serviço Nacional de Saúde, devido aos cortes impiedosos a que foi sujeito. Os orçamentos seguintes garantem desde já uma certeza: os défices previstos vão implicar sacrifícios adicionais.
    De facto, uma projecção para 2013 põe a nu o que é a vertigem das nossas dívidas, a pública e a externa, da ordem dos 85% e 140% do PIB, respectivamente. Ambas precisam de ser corrigidas e ninguém sabe como fazê-lo. No primeiro caso, temos de passar de défices a excedentes orçamentais. E, no segundo, temos de cortar ainda mais nos salários. Eis o cenário para uma década: recessão, estagnação ou, na melhor das hipóteses, crescimento lento.
    Mas a política não pára. Em 2011 vamos ter eleições, presumivelmente ganhas pelo PSD. E entra em cena Passos Coelho, para quem estes problemas são meros reflexos de um Governo incompetente e autista. É bom que assim seja. Porque lhe permite aprender duas coisas: que afinal não era tão fácil como pensava; e que também ele não tem soluções. Admito que, lá para o final de 2011, já se procure substituto. Vai ser um ano perdido.
    É aqui que entra o professor Cavaco, entretanto reeleito, a dar voz à sua famosa magistratura activa: um Governo monopartidário não funciona e vamos ter de o alargar. O PCP e o Bloco, pelas posições conhecidas, estão fora de causa. E o próprio CDS poderá vir a aderir ou não. Mas há dois partidos que o "interesse do país" vai obrigar a entender-se: o PS e o PSD. Vão ter de ser eles, de mãos dadas, a fazer esta travessia do deserto.
    É isto ou o caos.



    in DE
     
  2. JuizDidi

    JuizDidi Staff Moderador Temático Membro Gold

    Não chega uma legislatura


    Não chega uma legislatura


    05/11/10 | Jorge Marrão




    Estamos hoje todos subordinados ao instantâneo. No inconsequente debate colectivo, exigimos melhorias instantâneas nos indicadores do crescimento do PIB, défice, dívida pública/privada e emprego.

    Estamos hoje todos subordinados ao instantâneo. No inconsequente debate colectivo, exigimos melhorias instantâneas nos indicadores do crescimento do PIB, défice, dívida pública/privada e emprego, em oposição à realidade dos últimos anos que teima em não se alterar significativamente. Atribuímos uma estridente relevância às variações de décimas ocorridas num mês.
    O poder vê sempre sinais positivos numa variação decimal; a oposição duvida e antevê nefastas consequências. Desde que aderimos ao euro, as nossas taxas de crescimento económico têm sempre vindo a reduzir-se. Desde a revolução de Abril que não conseguimos não ter um défice nas contas públicas. A nossa dívida pública e externa tem sempre vindo a crescer. A qualidade e ritmo do (des)emprego também demonstram rigidez. As difíceis escolhas feitas em democracia foram disfarçadas com imposições externas.
    As raízes para estes comportamentos são fundamentalmente nacionais. Melhorar instantânea e significativamente todos estes indicadores é mistificação. É delírio, apenas possível, pela nossa idiossincrasia. Nem governantes, nem oposição, nem povo gostam de esperar. Convivemos mal com sacrifícios exigentes com durações longas. Somos uma sociedade impaciente. Aliviamos com uma boa notícia do mês, e deprimimo-nos com a referência negativa da semana. A nossa responsabilidade social raramente abarca as próximas gerações. Às dificuldades que lhe estamos a criar, afirmamos: "que se desembrulhem, façam-se à vida".
    Aceitamos o status quo anestesiados, desde que nos apontem bodes expiatórios (os ricos, a banca, os poderosos, a Europa, as crises internacionais, o petróleo, a globalização, o capitalismo, a ganância, os interesses, etc.). Nunca questionamos a responsabilidade individual e colectiva no estado das coisas. Os resultados não se alteram sólida e drasticamente com base em momentâneos discursos, quer sejam encorajadores ou depressivos. Sabemos que o longo prazo é uma sucessão de curtos prazos. Sabemos que há que acalmar os mercados de dívida pública.
    Sabemos que este Orçamento de Estado tem de ser debatido e aprovado. Mas o verdadeiro debate colectivo e geracional não pode ser feito à pressa. É imperativo criar regras próprias colectivas mínimas para um novo longo período. Não bastam namoros de ocasião numa legislatura, ou acordos pontuais e tácticos para um Orçamento de Estado, porque assim o exigem os credores de Portugal. É necessária uma séria transformação.
    Quaisquer que sejam os poderes e as oposições do momento, os portugueses, desta e das próximas gerações, não podem ser afastados dos benefícios do crescimento mundial que persiste em manter-se em períodos longos, contrariamente aos catastrofistas e apesar de todos os ciclos negativos registados. É inconcebível uma plena democracia sem partidos políticos em permanente disputa política. Mas, os partidos políticos actuais devem lembrar-se que sempre haverá mais vida do que a que nos oferecem em cada momento histórico.


    ____
    Jorge Marrão, Gestor




    in DE
     
Engisat