Auditores

Discussão em 'Economia e Finanças' iniciado por JuizDidi, Novembro 4, 2010.

  1. JuizDidi

    JuizDidi Staff Moderador Temático Membro Gold


    Auditores


    04/11/10 | António Gomes Mota




    A Comissão Europeia (CE) tem em discussão pública um Green Paper sobre a actividade dos auditores, visando a introdução de nova regulamentação sobre a mesma.

    Evitando grandes detalhes técnicos, centremo-nos na independência dos auditores face às empresas que auditam e na excessiva concentração do mercado centrada nas designadas Big 4, avocando a CE como fundamento para maior regulação a exigência legal inerente ao exercício da actividade. O documento aponta para uma regulamentação futura que suscita muitas dúvidas.
    Ao considerar a rotação obrigatória do auditor está a assumir a incapacidade da evolução das práticas de governo das sociedades para assegurar mecanismos apropriados de controlo de qualidade e independência do trabalho do auditor. Acresce que não há nenhuma evidência empírica de foro científico que valide os benefícios de tal rotação.
    Ao aventar a separação entre a empresa auditada e a entidade que contrata e estabelece os respectivos honorários ao auditor, está objectivamente a promover a transformação da actividade em algo de nebuloso, algures entre meras repartições públicas e empresas sem incentivos para promover a sua qualidade e eficiência.
    Ao avançar com mecanismos artificiais e não de mercado que promovam o aparecimento de outras grandes empresas de auditoria, como a obrigatoriedade de consórcios ou a imposição de dois auditores para cada empresa, está na prática a potenciar custos adicionais às empresas auditadas, paradoxalmente a aumentar a dependência face ao cliente das auditoras de menor dimensão até serem porventura grandes, sem que se identifique benefício na qualidade da auditoria, pois não se imagina empresas mais pequenas e mais frágeis a disporem de meios para uma auditoria de melhor qualidade e a divergir nas opiniões das grandes.
    Ao mesmo tempo e incompreensivelmente postula uma simplificação da revisão legal de contas às PME, sobre o pretexto de lhes aliviar custos, não protegendo os interesses dos seus ‘stakeholders' nem promovendo a sua evolução segundo adequados padrões de transparência e qualidade da informação prestada.
    Mais timidamente, o documento aponta também caminhos, mais certeiros, ao nível de aperfeiçoamentos na fiscalização e no governo das empresas de auditoria.
    Infelizmente, já não faz qualquer referência à preservação do papel das auditoras enquanto valiosos centros de criação de conhecimento, desenvolvimento de competências e de disseminação de melhores práticas de gestão organizacional.
    Não havendo bom senso corre-se o sério risco de desconstrução de empresas muito qualificadas e profissionalizadas sem que se veja benefício evidente na qualidade do exercício da actividade.
    E como responsável de uma Escola de Gestão, registo de interesse, fico apreensivo pelo papel que reconheço às grandes empresas de auditoria como importantes recrutadores de jovens licenciados e na formação que lhes facultam a benefício, também e mais tarde, de tantas outras empresas em que prosseguem as suas carreiras.


    ____
    António Gomes Mota, Professor na ISCTE Business School




    in DE
     
LMPC