Canções de embalar

Discussão em 'Economia e Finanças' iniciado por JuizDidi, Novembro 8, 2010.

  1. JuizDidi

    JuizDidi Staff Moderador Temático Membro Gold

    Canções de embalar


    João Cândido da Silva


    Banqueiros, especuladores e, até, Angela Merkel.
    Um a um, ou todos juntos, têm sido acusados de serem os grandes culpados pelas dificuldades que Portugal enfrenta.

    As teorias da conspiração podem servir para sacudir responsabilidades e aliviar algumas consciências. Mas são, apenas, um sinal preocupante de incapacidade ou simples recusa em reconhecer os erros, ponto de partida para se mudar de vida e de políticas.

    Se os credores têm relutância em continuar a financiar o Estado e a economia ou se aceitam fazê-lo exigindo um prémio de risco mais elevado, é preciso saber por que o fazem. E a resposta, para quem não queira entrar num jogo de ilusões e falsidades, está no rumo seguido pelo país há mais de uma década.

    Os factos falam por si. No Estado, desde 2000 o peso das despesas correntes sobre o produto gerado cresceu dez pontos percentuais. Para comportar esta bola de neve gastadora, os cofres públicos foram absorvendo recursos crescentes às famílias e às empresas.

    No mesmo período, as receitas totais recolhidas pelas administrações públicas aumentaram perto de 13 pontos percentuais. É a evidência de que a correcção do saldo negativo das contas públicas foi sendo realizada à custa de mais impostos, taxas e outros custos lançados sobre uma economia que, asfixiada, cresceu cada vez menos.

    Com uma taxa de poupança interna em queda acelerada, os défices público e externo cresceram à medida que os sectores público e privado tiveram que ir pedindo financiamentos no exterior para poderem sustentar as suas necessidades. Ano após ano, Portugal tem ido aos credores internacionais pedir volumes de financiamento em redor de 10% do produto. Um dia, a casa tinha que vir abaixo porque quem emprestou quer saber se vai ser reembolsado.

    Sobre este percurso que expôs o país ao desastre em que está atolado, somam-se as provas de incapacidade do Governo para cumprir metas orçamentais e uma lamentável tendência para dissimular a verdadeira situação das finanças públicas. Em 2009, depois de ter decidido aumentos salariais destinados a conquistar votos, reservou para depois das legislativas a revelação de que o objectivo para o défice não iria ser alcançado. Em 2010, o cenário repetiu-se. Se o Governo pode fantasiar com o que lhe apetecer, as culpas por ter enterrado a sua credibilidade perante os credores pertence-lhe, em exclusivo.

    A situação já seria má, mesmo se não houvesse outros factores de apreensão pela frente e que justificam a desconfiança dos financiadores, actuais e potenciais. A necessidade de impor restrições orçamentais vai colocar um travão adicional no ritmo de crescimento da economia portuguesa durante os próximos anos. E, no interior das contas públicas, esconde-se uma bomba-relógio chamada "parcerias público-privadas", brilhante engenharia baseada no princípio "compre hoje, pague depois" que, a breve prazo, custará quatro submarinos por ano aos contribuintes.

    Perante um quadro pouco tentador, é normal que emprestar dinheiro a Portugal seja visto como uma empreitada de alto risco. O resto, dos especuladores à chanceler alemã, são canções de embalar.




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