Crédito em incerteza

Discussão em 'Economia e Finanças' iniciado por JuizDidi, Novembro 2, 2010.

  1. JuizDidi

    JuizDidi Staff Moderador Temático Membro Gold


    Crédito em incerteza


    02/11/10 | António Ramalho




    Longe vão os tempos em que os mais crentes na União Monetária anunciavam o fim das restrições nacionais ao crédito, acreditavam na justa dureza das políticas monetárias de um Banco Central Europeu totalmente independente, e pensavam que a capacidade creditícia dependeria essencialmente dos méritos dos seus projectos e da qualidade das suas empresas.

    Se houvesse dúvidas de que o Espaço Único Europeu pouco tinha de europeu, e nada tinha de único, bastaria estar atento à recente polémica sobre o papel do BCE no financiamento das economias para perceber as dificuldades de construir a Europa dos Países.
    Para ilustrar o que digo, não há melhor exemplo do que a gestão das expectativas europeias sobre o futuro da sua intervenção monetária.
    Vejamos: desde Julho deste ano o Eurosistema apresenta níveis de cedência de liquidez aquém dos 500 mil milhões de euros, montante totalmente em linha com o volume normal que se verificava antes da crise de confiança importada por ocasião da falência da Lehman, em Setembro de 2008. Já estão quase esquecidos os montantes de quase 900 mil milhões que o sistema europeu necessitou, quer em fins de 2008, quer em meados de 2009, quer no início de 2010.
    Nestas circunstâncias, seria natural que o Banco Central se congratulasse com este resultado particularmente positivo, conseguido com as medidas excepcionais que ainda hoje vigoram. Mais se deveria congratular com o facto de esta política ter permitido manter níveis de crescimento sensatos do crédito, sem pressões inflacionistas e quando a taxa de crescimento do PIB europeu se mantém nuns modestos 1,2% (em Agosto a taxa de variação homóloga do crescimento do crédito para o sector privado situava-se nos 1,3% para a Europa e nos 2% para Portugal, com especial foco na habitação, 3,4% na Europa e 3,1% em Portugal).
    E, quem sabe, deveria unir-se para fazer face às políticas de ‘quantitative easing' que o Japão introduziu e os Estados Unidos anunciam, contribuintes líquidas para uma guerra cambial, versão "a mercado", do proteccionismo pós-depressão.
    Mas não. Afinal, o Eurosistema não se perdeu em festejos. Pelo contrário, logo abriu uma polémica interna, que promete intensificar-se, sobre qual o nível aceitável de financiamento dos sistemas periféricos, para os quais se mantêm as mesmas restrições ao mercado que justificaram as medidas excepcionais introduzidas em 2008.
    Naturalmente que é relevante debater os desequilíbrios orçamentais intra-europeus. Claro que importa disciplinar o nível de endividamento das regiões. O que não é, nem claro, nem relevante é fazê-lo à custa de uma dose de insensata incerteza. Porque ninguém dá crédito à incerteza.



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