Imperfeição sistémica

Discussão em 'Economia e Finanças' iniciado por JuizDidi, Novembro 9, 2010.

  1. JuizDidi

    JuizDidi Staff Moderador Temático Membro Gold


    Imperfeição sistémica


    09/11/10 | José Reis Santos




    Findo o dramático processo negocial entre PS e PSD sobre o Orçamento do Estado, o país ficou a saber que o actual sistema político e partidário português deixa muito a desejar.

    O teste ao funcionamento do sistema em cenário de governo minoritário falhou; até porque a principal preocupação dos interlocutores do recente (des)acordo orçamental nunca foi a de garantir um clima de trabalho que permita uma consistente estabilidade política, mas sim em procurarem condicionar a agenda política subsequente.
    Por força das principais influências culturais e políticas à época, Portugal nunca implementou um sistema de tipo-maioritário (como o inglês, por exemplo) que permitisse a construção de governos monopartidários; e instaurou um sistema político que deveria potenciar a regular negociação parlamentar. No entanto, a nossa história eleitoral, nomeadamente após 1986, tem consecutivamente colocado em causa as ambições dos nossos "pais fundadores", uma vez que assistimos à frequente eleição de governos de maioria absoluta, de grande maioria parlamentar ou de aliança pós-eleitoral. Neste sentido, a dinâmica negocial que deveria ser a base do sistema nunca foi totalmente potenciada. Como consequência, o sistema partidário acomodou-se. Habituou-se a governar em maioria e a prescindir da negociação para a obtenção de resultados políticos.
    A segunda dimensão prende-se com o sistema partidário. Inicialmente os partidos políticos desempenhavam uma função social e representavam certos sectores da sociedade e procuravam consagrar propostas políticas assentes em valores, ideologia e outras variáveis. Hoje, sistema partidário está alheado da sociedade civil, principalmente quando nos referimos aos partidos de poder. Hoje os partidos preocupam-se mais em se auto-representar, internamente, que representar interesses diversos. Os partidos perderam assim a capacidade de se relacionarem com o espaço público fora da sua estrutura interna, desaparecendo no processo a dimensão social que em tempos detinham, substituída pela busca permanente de resultados eleitorais que lhes permitam a gestão continua do poder. Esta falta de uma estrutura partidária dinâmica e interactiva com os diversos sectores da sociedade tem levado, então, a um constante divórcio entre a sociedade civil e política, e à incapacidade do sistema partidário gerar novos protagonistas que "refresquem" a classe política portuguesa.
    Estas são duas dimensões que assumem uma importância sistémica que não deve ser descorada do actual debate político. Infelizmente ainda estamos demasiado preocupados com as pequenas minudências da pequena política, e corremos o risco de perder a oportunidade de abordar o essencial.


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    José Reis Santos, Historiador



    in DE
     
  2. JuizDidi

    JuizDidi Staff Moderador Temático Membro Gold

    Circo


    Política

    Circo

    João Paulo Guerra
    09/11/10

    A desqualificação da classe política está na ordem do dia e ainda ontem, em entrevista a este jornal, o dr. António Vitorino dizia que “há um empobrecimento das lideranças”.

    Basta olhar em redor. Ou entrar em cada sede partidária e percorrer a galeria dos líderes. Lá estão, a olhar para a posteridade, Mário Soares, Sá Carneiro, Freitas do Amaral, ou Adriano Moreira, ou até mesmo Francisco Lucas Pires, o velho Álvaro Cunhal. Independentemente do respectivo ideário, havia alguma grandeza naquelas figuras. Agora pensemos nos próximos cromos a juntar às galerias e só vemos retratos ‘a la minute' de pequenos, apressados e fugidios líderes, pouco ou nada significantes perante a História.
    E esta é a geração que inventou precisamente os contratos por objectivos e a avaliação permanente: os objectivos ficaram nos patamares dos mais absolutos fracassos e a avaliação, a ter sido feita, daria um fiasco comprometedor. E não venham com a conversa de que a avaliação da classe política é feita nas urnas porque ao povo só lhe resta votar no que há, no que as cliques partidárias lhe servem à mesa das eleições, com acompanhamento de demagogia banhada em corantes e conservantes.
    Imaginemos que as promessas eleitorais passavam a ser contratos por objectivos assinados pelos governos. Baixar o défice, não aumentar impostos, criar 150 mil empregos e outras balelas. A esta hora haveria filas de ex-ministros e ex-secretários de Estado no balcão para o subsídio de desemprego.
    E algum governo cumpriu a promessa de fazer funcionar a Justiça, estabilizar o sistema educativo, garantir saúde aos portugueses, acabar com as pensões de miséria, criar postos de trabalho? Ou os portugueses andam todos a fingir que acreditam em números de ilusionismo de um circo de artistas decadentes e falhados?




    in DE
     
  3. JuizDidi

    JuizDidi Staff Moderador Temático Membro Gold

    Os "bons", os "menos bons" e a qualidade da política portuguesa

    Os "bons", os "menos bons" e a qualidade da política portuguesa


    Camilo Lourenço


    António Vitorino disse ao "DE" que o Governo acordou tarde para o problema da dívida soberana.

    Em sua opinião, em Maio (quando se fez o primeiro pacote de austeridade) "deveríamos ter agido de outra maneira e de forma mais ampla".

    É bom ver pessoas do quilate de Vitorino a dizerem coisas destas. Porque representam uma crítica à forma como o Governo conduziu as coisas. Mas vale a pena fazer uma pergunta: Porque é que Vitorino, e outras pessoas lúcidas do PS, não vieram a terreiro dizer isto em Junho… ou mesmo Julho? É que logo aí ficou claro que o Governo andava a empurrar com a barriga. Só não viu quem não quis!

    Não conhecemos a resposta. Embora se possa especular: foi por solidariedade partidária? Se sim, foi um disparate: há muito que Vitorino mandou às malvas a política; o que lhe dá poder de intervenção. Foi porque alguns dos "lúcidos" não podem hostilizar o Bloco Central (negócios oblige)?

    A atitude de Vitorino sintetiza o problema fundamental da política portuguesa: os "bons" estão do lado de fora; os "menos bons", e muitos medíocres, estão do lado de dentro (ou seja, existe um gravíssimo défice de qualidade na nossa classe política). E, salvo raríssimas excepções, os "bons" não põem o pescoço de fora para influenciarem o curso dos acontecimentos. Só falam à segunda-feira, quando toda a gente já conhece a chave do Totoloto.

    É este défice de qualidade da classe política que está a atirar o País para um lodaçal, comprometendo o futuro. Valia a pena que os partidos (sobretudo os do poder) pensassem nisso, para ver se ainda vamos a tempo de dar a volta ao texto.




    in JNeg
     
  4. JuizDidi

    JuizDidi Staff Moderador Temático Membro Gold

    Pão e rosas

    Pão e rosas


    Fernando Sobral


    Os políticos gostam das palavras que soam bem, mesmo que sejam ambíguas.

    Ou melhor: porque são ambíguas. Em épocas de crise é pior: a ambiguidade torna-se inquietante. Até porque o nervosismo contamina a própria classe política. No PS já se atiram nomes para a fogueira como potenciais sucessores de José Sócrates. E o pragmático António Vitorino não se coíbe de sussurrar ao "DE": "Governo acordou tarde para o problema da dívida soberana". Alguém, no PS, começa a acordar para os desafios dos próximos anos, em que o dinheiro não abundará em Portugal para distribuir. A teia financeira vai manietar a classe política portuguesa, que costuma governar com benesses várias distribuídas aos conterrâneos e amigos. Nos próximos anos nenhum Governo vai poder dizer que, no regaço, leva pão e não rosas para distribuir. É aí que surge outra nuvem passageira. Passos Coelho tirou da cartola um conjunto de palavras que soam bem aos ouvidos de militantes do PSD e aos eleitores: os responsáveis por derrapagens na despesa pública devem poder ser responsabilizados civil e criminalmente. É tão elementar que é um enigma digno de Sherlock Holmes. Presume-se que Passos Coelho acredita que vai ser o próximo primeiro-ministro. Ou seja, está a avançar com uma ideia que, soando bem, soa mal para quem quer gerir o sítio. Será que Passos Coelho quer governar com uma guilhotina em cima da cabeça e, depois, perder as eleições porque não pode, como qualquer político militante, fazer umas dádivas aos pobres votantes? A crise reforça a ambiguidade. A maior, no entanto, é como vamos sair dela.




    in JNeg
     
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