Lembra-se de Bo Derek?

Discussão em 'Economia e Finanças' iniciado por JuizDidi, Novembro 1, 2010.

  1. JuizDidi

    JuizDidi Staff Moderador Temático Membro Gold

    Lembra-se de Bo Derek?



    João Cândido da Silva

    "Quem disse que o dinheiro não pode comprar a felicidade, simplesmente não sabia onde ir fazer compras".

    A tirada da actriz norte-americana Bo Derek explica muito sobre a cultura de consumo que conduziu as economias desenvolvidas, incluindo Portugal, a uma crise financeira e económica como não se via há 80 anos. Mas não é um bom lema para o futuro.

    A queda progressiva da taxa de poupança durante os últimos 30 anos e o crescente endividamento do Estado, das empresas e das famílias, deu lugar a uma ressaca que vai durar mais tempo do que se desejaria. Pelos meados dos anos 70, as famílias portuguesas poupavam o equivalente a quase 30% do produto gerado pelo País. Agora, o mesmo indicador pouco sobe além dos 10%. Muitos dos gastos de consumo realizados nos tempos mais recentes foram sustentados com o recurso a financiamentos provenientes do exterior. O que parecia ser uma boa vida, não era um modo de vida duradouro.

    Com os sinais de alarme a soar nos mercados em que os credores portugueses decidem a que preço ainda estão dispostos a emprestar dinheiro a Portugal e com o anúncio de medidas de austeridade a antecipar que uma fatia adicional dos rendimentos familiares vai ser eclipsada pelos impostos, a necessidade de recuperar hábitos de poupança está a (re)entrar na moda. Há indicadores que denunciam esta tendência. Os depósitos efectuados junto dos bancos têm aumentado, em resultado de uma procura de refúgios de menor risco para o dinheiro, e a taxa de poupança em Portugal começou a inverter o longo ciclo de queda.

    As incertezas em relação ao futuro são o grande incentivo para esta nova realidade. Mas os obstáculos não caem com tanta facilidade. Para reequilibrar as finanças públicas, uma parte potencial da poupança gerada vai ser recolhida pelos cofres do Estado. Depois, muitas famílias mal têm rendimentos para sustentarem as suas despesas correntes e a situação não vai melhorar no horizonte mais próximo. Aquelas que conseguem chegar ao final do mês com um excedente passível de ser aplicado com o objectivo de suportar alguma despesa futura, têm fortes dificuldades em decidir o que é melhor para o seu dinheiro.

    Chama-se "iliteracia financeira" a doença crónica que conduz à má qualidade do investimento. Aforradores que desconhecem os riscos que correm apostam em acções cotadas em bolsa na expectativa de ficarem ricos a curto prazo. Investidores prudentes aceitam subscrever produtos financeiros que não compreendem. Pessoas que estão nas faixas etárias mais jovens e que querem fazer um aplicação a longo prazo são convencidas a comprometer o seu dinheiro, durante décadas, em instrumentos que oferecem rendibilidades incapazes, sequer, de bater a taxa de inflação. Regra geral, sujeitam-se a más surpresas. E estas, quando parece que podem acontecer, acontecem mesmo.

    Dar luta ao desconhecimento é uma prioridade. E conhecer algumas regras básicas é um bom princípio. Por exemplo, preferir a simplicidade e aquilo que se entende em detrimento de produtos complexos e opacos. Ou definir objectivos e saber para que se quer poupar, antes de partir em busca de alguma solução que terá grande probabilidade de dar um resultado semelhante ao de comprar um fato sem o provar.

    Esclarecer estas e outras dúvidas é o objectivo deste "Especial Poupança 2010" que o Negócios lhe oferece hoje e que assinala o "dia mundial" dedicado ao tema. É o nosso contributo para sublinhar que Bo Derek pode ter tido a sua graça mas, tal como o domínio do consumo sobre a poupança, já teve o seu tempo.




    in JNeg
     
Génio Digital