No fim de linha o bicho rói por dentro

Discussão em 'Economia e Finanças' iniciado por JuizDidi, Novembro 14, 2010.

  1. JuizDidi

    JuizDidi Staff Moderador Temático Membro Gold


    No fim de linha o bicho rói por dentro


    14/11/10 | Raul Vaz




    Fim de linha: tudo o que diga o ministro das Finanças deixou de contar. O furo da barreira dos 7% junta-se à série de erros desde que a crise financeira desorganizou o modelo Sócrates.

    A série é longa e multiplica os efeitos que afirmam a dúvida metódica sobre qualquer iniciativa do Governo. Deste Governo. Esse é, no quadro político em vigor, um problema sem solução imediata.
    Para memória futura é irrelevante enquadrar a linha de força que prolongou a linha de vida: quem venceu uma crise orçamental é capaz de ultrapassar qualquer obstáculo. Era assim que se ouvia e se fez acreditar como argumento de rejeição. Foi assim que Sócrates ganhou as eleições a Ferreira Leite, com a activa cumplicidade do seu ministro das Finanças. Pode-se acreditar que Teixeira dos Santos não foi político, foi apenas incompetente. Ontem como agora - quando é vergado pelos pressupostos que voluntariamente impõe.
    Por vontade própria ou decisão superior, Teixeira dos Santos recolheu-se. No seu lugar surge agora o ministro Vieira da Silva. Que vende menos que o seu antecessor - o saudoso Manuel Pinho - mas possui o tom pausado para, sem falso sorriso, dar a boa nova. A economia portuguesa cresceu, dados oficiais do INE, no último trimestre 0,4%, em comparação com o trimestre anterior. Chega para o PIB deste ano pular para níveis superiores à última estimativa - que, em crescimento económico, já fugia ao arrepio de todas as expectativas. Ou seja: ontem, o mundo voltou a mudar e tudo voltou a estar bem - até se conhecer a tentação da Irlanda pelo fundo europeu de emergência.
    Eis-nos de regresso a uma periferia maltratada pelo eixo franco-alemão, razão maior do nosso castigo. Acontece que o bicho começa sempre por dentro e é na demonstração desse fenómeno que se deve registar um interessante diálogo de António Vitorino com Maria João Avillez na plataforma Económico (Diário Económico, ETV, Económico.pt, Mobile). Dito por Vitorino - "o Governo acordou tarde para o problema da dívida soberana" -, a constatação mata os últimos seis meses da governação.
    E é no rigoroso significado desta declaração que deveria assentar a responsabilidade política. Como? Aceitando-se - reconhecendo o Presidente da República e o chefe do Governo - que o tempo está contra a sustentabilidade do que está em vigor e quanto mais tarde se agir pior. O contrário de nada vale, sobretudo quando os pedidos vêm de dentro - a Vital Moreira e João Proença junta-se um friso socialista a clamar uma nova composição.
    Se vier, virá fora de tempo. Estamos no fim de linha quando uma personagem como Edite Estrela sente necessidade de dizer: "Continuo a confiar no ministro Teixeira dos Santos". É óbvio que, como a maioria dos portugueses, já não confia. Nem Edite, nem Vitorino, nem, provavelmente, o próprio Sócrates.



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