No precipício, mudamos

Discussão em 'Economia e Finanças' iniciado por JuizDidi, Novembro 8, 2010.

  1. JuizDidi

    JuizDidi Staff Moderador Temático Membro Gold


    No precipício, mudamos


    08/11/10 | Miguel Coutinho




    A insólita ideia de Pedro Passos Coelho de responsabilizar civil e penalmente os responsáveis pelas derrapagens na despesa pública é a maior auto-limitação que um candidato a primeiro-ministro impôs a si próprio em 36 anos de regime democrático em Portugal.

    O mais importante aqui não é avaliar a discutível sustentação jurídica da proposta, mas sim, interpretar a mensagem que ela transporta. O que o líder do PSD nos está a dizer, conscientemente ou não, é que aceita ser primeiro-ministro por apenas um mandato para fazer as reformas profundas e profundamente impopulares que permitirão ao país viver um ciclo de quatro anos sem défices excessivos - sob pena de ser punido civil e penalmente. Esta questão suscita outras duas: estará Pedro Passos Coelho preparado para assumir uma cultura de responsabilidade que não tem saídas de emergência?
    E estará o PSD disponível para aceitar o ‘karma' da impopularidade, sem recurso à gestão do ciclo político? Já se disse e repetiu que, se tivesse efeitos retroactivos, a proposta do líder do PSD deixaria quase todos os governantes e a maioria dos gestores públicos desde o 25 de Abril de 1974 em maus lençóis com a justiça. Mas, só o futuro dirá se esta ideia foi um excesso, um arrebatamento demagógico, ou se revela uma convicção para trilhar um caminho sem regresso, convencendo o país e desafiando o partido. Numa sociedade em que a cultura de responsabilidade está frequentemente ausente do serviço público, a proposta de Passos Coelho parece feita de um radicalismo que não se coaduna com a forma de ser português. Mas, também é verdade que só confrontados com o precipício, mudamos.
    Uma obsessão chamada FMI O FMI tornou-se uma obsessão nacional - como se fosse, simultaneamente, a nossa humilhação e a nossa redenção.
    De repente, não há empresário, banqueiro, político ou famoso da televisão que não tenha um palpite sobre a necessidade de intervenção do Fundo ou a sua total irrelevância. Infelizmente, não é pela quantidade de vozes e opiniões publicadas, defendendo uma coisa ou o seu contrário, que o FMI virá a Portugal ou deixará de vir para colocar ordem nas nossas contas públicas. Depende, como sempre e apenas, do que fizermos e não do que dissermos.




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