O emprego solidário

Discussão em 'Economia e Finanças' iniciado por JuizDidi, Novembro 12, 2010.

  1. JuizDidi

    JuizDidi Staff Moderador Temático Membro Gold

    O emprego solidário


    12/11/10 | Daniel Amaral




    O director-geral do FMI, Dominique Strauss-Kahn, a propósito desta crise maldita que já destruiu 30 milhões de empregos em todo o mundo, definiu aquilo que considera serem as três prioridades do momento: criar emprego, criar emprego e criar emprego.

    Assino por baixo. A dimensão deste flagelo, sobretudo nas economias a que chamamos avançadas, é hoje o problema mais grave com que vamos ter de nos confrontar. Que fazer?
    Imaginemos um país com 10 milhões de residentes e 6 milhões de população activa, dos quais 5,4 milhões estão empregados e os restantes 600 mil (10%) no desemprego. E admitamos que as partes se punham de acordo para cortar 10% nos salários e no tempo de trabalho, fazendo a compensação com mais emprego. A produção seria a mesma, com os mesmos custos, e os 600 mil desempregados seriam todos absorvidos.
    Chamar-lhe-íamos emprego solidário.
    Claro que estou a simplificar. As coisas não são tão fáceis assim. Mas isso não invalida que, no essencial, a tese seja defensável: em situações de crise grave no mercado de trabalho, como é esta em que vivemos, os que têm tudo deveriam sacrificar uma parte para oferecer àqueles que não têm nada. Esta seria, de resto, uma solução transitória: logo que a retoma voltasse, com mais procura, repor-se-iam os valores iniciais - agora com um emprego mais alto.
    O país imaginário de que falei acima não se afasta muito da realidade portuguesa. E o modelo preconizado não se esgota na criação de emprego. Poderia actuar antes disso, quando a crise chegasse, obstando a que houvesse despedimentos. Condição prévia: a flexibilidade nas leis laborais - exactamente a condição que os nossos sindicatos sempre rejeitaram. Compreendo as razões, mas penso que o tema deveria ser debatido em sede de concertação social.
    Uma última nota para situar os EUA e a Alemanha. Os americanos privilegiaram os apoios orçamentais à economia; os alemães preferiram controlar os défices e defender o emprego. Hoje comparam-se os números e o contraste é demolidor: o défice público na Alemanha é de 3% do PIB e nos EUA de 12,5%; e enquanto o desemprego alemão é idêntico ao que existia antes da crise (7,5%) o americano disparou para quase o dobro (10%).
    Um país vale o que valerem as suas opções.


    Os EUA privilegiaram os estímulos à economia e chegaram a um défice de 12,5% do PIB. A Alemanha seguiu o caminho inverso e ficou-se pelos 3%. Os reflexos no mundo laboral não poderiam ser mais antagónicos: a Alemanha tem o mesmo desemprego que tinha antes da crise; os EUA elevaram-no para quase o dobro. Méritos da Alemanha: reduziu os horários para aumentar o emprego e o PIB está a crescer mais de 3% ao ano.
    ____
    Daniel Amaral, Economista
     
    Última edição: Novembro 12, 2010
DreamPortugal