O mundo ao contrário

Discussão em 'Economia e Finanças' iniciado por JuizDidi, Novembro 15, 2010.

  1. JuizDidi

    JuizDidi Staff Moderador Temático Membro Gold

    O mundo ao contrário


    Luis Nazaré


    Se o absurdo pagasse imposto, os governos europeus veriam os seus problemas financeiros facilmente resolvidos.

    1 Se o absurdo pagasse imposto, os governos europeus veriam os seus problemas financeiros facilmente resolvidos. Nunca como hoje a incongruência dos mecanismos monetários, orçamentais e cambiais da União Europeia foi tão evidente. Nunca como hoje a economia esteve tão sujeita aos ditames da finança e da racionalidade especulativa. Nunca como hoje a Europa se submetera a um exercício voluntário de auto-flagelação ante as nações, monetariamente soberanas, que com ela rivalizam. No dia em que se fizer a história da actual crise, qualquer que venha a ser o seu rumo, o papel da Alemanha merecerá lugar de destaque. Na pior das hipóteses, o prefácio será assinado pela Sr.ª Merkel.

    Sobre os erros próprios, pouco resta a acrescentar à evidência crua dos factos. Embalados pelo crédito fácil, pela bolha imobiliária e pelos truques contabilísticos, os países da periferia perderam o norte. As dificuldades que agora atravessam provêm de um cocktail explosivo cujos ingredientes principais foram fornecidos, em doses idênticas, por governos voluntaristas e bancos gananciosos. A progressiva fragilização dos seus tecidos económicos, minados pela deslocalização industrial, pela lógica predatória dos "mercados de controlo" e pelo envelhecimento das populações, fez o resto. De conjuntural, a crise virou estrutural.

    Se o espírito europeu fosse algo de tangível, se os mecanismos de solidariedade que se julgava existirem na UE funcionassem, os efeitos da crise seriam certamente minorados. A Califórnia, a região mais progressiva do planeta, convive sem angústias de maior com uma situação de bancarrota nas contas públicas. Por lá, a Reserva Federal faz o seu trabalho de casa, criando dinheiro e comprando dívida (tal como acontece no Japão). Por cá, a Sr.ª Merkel cuida da sua popularidade doméstica e o Banco Central Europeu compraz-se na sua função de almoxarife, assistindo placidamente ao garrote imposto pelos "mercados financeiros" aos países mais débeis e à absurda apreciação do euro face ao dólar, que só convém aos alemães. Com o virar do século, os nossos colegas teutónicos sentiram que já tinham expiado as suas culpas na 2ª guerra mundial e que os deveres de solidariedade caducaram. Teremos que nos amanhar, com ou sem a Alemanha.

    A fragilidade do edifício europeu e a hiper-dependência dos Estados face aos agentes financeiros não passa despercebida aos olhos de muitos economistas internacionais. Provocatoriamente, Paul Krugman caracteriza a actual situação como "Sex & Drugs & Market Role", destacando o papel pernicioso e interesseiro das agências de "rating", onde pontificam as duvidosas competências de "analistas" de 25 anos, peritos em "spreadsheets", automóveis de luxo e outras coisas mais. Suspeito que, na sua esmagadora maioria, não possuam mais do que uma vaga ideia de onde se situa Portugal e que julguem que o Banco Espírito Santo é um veículo duvidoso do Vaticano. A boa notícia é que as críticas à actuação das agências têm vindo a acentuar-se, vide no Financial Times, abrindo uma nesga de esperança ao surgimento de "ratings" produzidos na Europa por gente credível. Por ora, resta-nos o Dagong.

    Nouriel Roubini, por seu turno, desenvolve a paradoxal tese de que "só os fracos sobrevivem", num exercício intelectual onde as tensões cambiais são escalpelizadas à luz da "paralisia do reajuste global". Roubini aponta um dedo acusador ao BCE, cuja obsessão anti-inflacionária poderia conduzir à destruição das hipóteses de recuperação dos países periféricos. Ora, na verdade, "se a China, os mercados emergentes e outros países excedentários impedirem a apreciação nominal das suas moedas, a única forma de os países deficitários conseguirem uma depreciação real é através da deflação, o que conduziria a défices orçamentais ainda mais elevados e a uma dívida galopante". Os efeitos em cascata poderiam ser devastadores para a economia mundial.

    2 Em plena fase de produção desta peça, recebo a notícia de que o famigerado acordo de Deauville - onde alemães e franceses teriam assente o princípio de que as instituições credoras de países sujeitos a resgate teriam de suportar uma parte considerável das perdas - foi objecto de uma moratória, conforme comunicado dos ministros das finanças europeus, à margem do encontro do G20. Já é alguma coisa.


    Economista; Professor do ISEG




    in JNeg
     
LMPC