O preço da verdade

Discussão em 'Economia e Finanças' iniciado por JuizDidi, Novembro 5, 2010.

  1. JuizDidi

    JuizDidi Staff Moderador Temático Membro Gold


    O preço da verdade


    05/11/10 | João Adelino Faria




    Primeiro surgiram os downloads piratas da música e o resultado foi uma indústria em crise.

    Depois foi a partilha ilegal de filmes na net, e as salas de cinema ficaram quase vazias. Agora chegaram os sites de troca de documentos secretos e segredos de Estado sob a capa de jornalismo...com consequências que ainda só podemos imaginar!
    Com o site Wikileaks o mundo mudou de facto para sempre. A partir de agora neste site são descarregados milhares de documentos secretos e segredos de Estado. Desta forma, quem tenha acesso a documentos sigilosos e os queira tornar públicos, envia-os para este distribuidor na internet que se encarrega de os tornar de imediato acessíveis à população mundial.
    Para quem fornece os documentos não há riscos, porque a tecnologia e a internet conseguem apagar o rasto da "fonte", e para quem os vai buscar é quase impossível ser detectado. Os responsáveis garantem mesmo que o Wikileaks é mais seguro que o sistema informático de muitos bancos mundiais.
    A impunidade dos autores do site está também assegurada pelo facto de serem uma espécie de " agência de notícias" apátrida uma vez que não pertencem a nenhum país e por isso dificilmente serão responsabilizados judicialmente, mesmo quando violam leis internacionais.
    Com a divulgação de milhares de documentos secretos sobre o Afeganistão e agora sobre o Iraque o Wikileaks obrigou as mais altas instâncias mundiais a dar explicações e arrastou os media do planeta a noticiar as denúncias feitas. Para muitos este site é por isso a última esperança para o jornalismo de investigação. Para outros é a derradeira forma de fazer denúncias difíceis de publicar por jornalistas cada vez mais manietados por leis e códigos de ética.
    Mas será que em nome da liberdade de informação tudo se justifica? Será que ao publicar um segredo de Estado estamos a ajudar o mundo a ser melhor ou antes a auxiliar apenas alguns a atacar e matar mais facilmente outros? Será que estamos a tornar o mundo mais transparente ou pelo contrário a torná-lo mais inseguro?
    Uma coisa é certa: temos de ultrapassar rapidamente esta espécie de esquizofrenia de uma sociedade que concorda que são necessários segredos de Estado para nos proteger, mas ao mesmo tempo reclama que tudo seja tornado público independentemente das consequências. Em que é que ficamos?
    A pergunta não é da resposta fácil e merece seguramente uma séria reflexão. Mas enquanto o mundo rejubila de felicidade por ver os poderosos tremer perante a rebeldia e impunidade de alguns vingadores da internet, deveríamos ao mesmo tempo medir as consequências. A Amnistia Internacional começou por aplaudir as denúncias feitas mas já veio, aflita, pedir a omissão de certos documentos que podem ter dado às milícias afegãs os nomes de informadores que estariam agora a ser caçados!
    Claro que como jornalista e cidadão fico satisfeito e aliviado por saber que por causa da divulgação dos documentos da guerra do Iraque talvez muitos dos que violaram direitos humanos possam vir a ser punidos. Mas à custa de quantas outras vidas, violações e mortes será feita esta justiça de pelourinho?
    Por agora ainda estamos embriagados pelo poder que é saborear no conforto da nossa casa as informações secretas de Estados, instituições económicas e bancárias ou mesmo exércitos. O que poderemos estar a esquecer é que, enquanto nós o fazemos com sentido de justiça ou apenas por voyeurismo, algures no planeta várias organizações terroristas podem também estar neste momento a vasculhar os mesmos documentos que, por alguma razão, foram até hoje... mantidos em segredo.


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    João Adelino Faria, Jornalista e ‘pivot' da RTP




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