Piigs

Discussão em 'Economia e Finanças' iniciado por JuizDidi, Novembro 14, 2010.

  1. JuizDidi

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    PIIGS


    14/11/10 | João Cardoso Rosas




    Ouvi a expressão pela primeira vez em meados dos anos noventa. Estava então numa instituição europeia quando um colega estrangeiro me perguntou se sabia como se designavam os países do sul da Europa.

    Eu respondi: Club Med. Ele retorquiu de imediato: essa é a designação pública, mas nós aqui chamamos-lhes PIGS ("Portugal, Italy, Greece, Spain"). Confesso que fiquei extremamente chocado.
    Mais recentemente, quando o Tigre Celta se transformou numa desilusão, foi acrescentado o I de "Ireland". Entretanto, a expressão já se tinha vulgarizado, passando a ser usada pelos ‘media' britânicos e internacionais. Aquilo que antes era dito em voz baixa, nos corredores de algumas instituições, passou a estar nas bocas do mundo.
    Ora, as palavras nunca são inocentes e a designação PIIGS tem algumas características óbvias e outras menos óbvias. Em primeiro lugar, ela é não só depreciativa como também parcial. Os países do centro (França, Reino Unido, Alemanha) podem ser tão ou mais responsáveis pelas crises da Europa, mas são sempre os PIIGS que tendem a ser culpabilizados. Em segundo lugar, esta designação coloca na mesma categoria países completamente diferentes. Os problemas actuais de um país como Portugal, por exemplo, são claramente distintos dos da Irlanda. O primeiro tem um problema de dívida e de finanças públicas, o segundo um problema no sistema bancário. Em terceiro lugar, ao colocar estes países dentro da mesma categoria, gera-se a impressão que, se um não resistir à crise, os outros também não resistirão - e, quando os mercados pensam assim, isso acontece mesmo, dado que eles são especialmente dados às chamadas "profecias que se realizam a si mesmas".
    Já notei muitas vezes, ao consultar os comentários dos leitores nos ‘sites' das publicações económicas internacionais, que os PIIGS geram uma enorme acrimónia por toda a Europa. Mas, pior do que o modo como somos tratados, é o facto de muita gente entre nós aceitar pacificamente esse tratamento. Já tenho ouvido comentários do género: "é uma designação merecida".
    Este tipo de fenómenos é conhecido nas ciências sociais que estudam as questões da identidade. A identidade de um povo, tal como a de um indivíduo, depende em grande parte do reconhecimento de que é alvo por parte dos outros. Quando somos alvo de um reconhecimento negativo - e não positivo, ou neutro - por parte daqueles que estão numa posição de poder em relação a nós, gera-se um processo de interiorização que leva a que concebamos a nossa identidade também em termos negativos. Mas, quanto mais depreciativa é a imagem que temos de nós mesmos, mais difícil se torna "dar a volta" e contrariar o reconhecimento negativo que os outros nos atribuíram.

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    João Cardoso Rosas, Professor universitário



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