Vendedores de ilusões

Discussão em 'Economia e Finanças' iniciado por JuizDidi, Novembro 12, 2010.

  1. JuizDidi

    JuizDidi Staff Moderador Temático Membro Gold


    Vendedores de ilusões


    12/11/10 | João Adelino Faria




    O povo já o vinha dizendo cada vez mais alto e a confirmação foi oficializada agora pelo próprio Presidente da República através do Facebook.

    O povo já o vinha dizendo cada vez mais alto e a confirmação foi oficializada agora pelo próprio Presidente da República através do Facebook: "Vejo com muita apreensão o desprestígio da classe política!" Com esta frase o mais alto chefe da Nação mais não fez do que confirmar uma realidade e um problema já assumidos no mundo inteiro.
    Durante os últimos anos, os políticos aprenderam a utilizar de forma cada vez mais hábil os media para criar ilusões de que as promessas que vendiam se iam tornar reais e que eles eram bem melhores do que o eram de facto. Depois das tentativas de controlo quase directo dos media nos anos 80 e 90 os estrategas de governos e oposições descobriram uma maneira bem melhor de influência. Mais do que tentar controlar directamente o alinhamento de um telejornal, ou editorialmente um jornal, perceberam rapidamente que era bem mais eficaz seduzir os media para agarrar o eleitorado.
    Com poderosas máquinas publicitárias por detrás, governantes e oposições passaram a criar acções e eventos minuciosamente organizados mas sob a aparência de actos oficiais e com a seriedade das acções políticas. Um perfeito isco para alguns media que, por muito que suspeitassem das razões invocadas, não podiam negar cobertura. Assim se anunciaram projectos, leis, reformas, e até orçamentos. E o povo foi acreditando até que a dura realidade acabou por ser revelada.
    Desfeita a ilusão generalizou-se agora, quase pelo mundo inteiro, um tremendo descrédito para com aqueles que nos pedem os votos. Não foi apenas o sistema bancário que rebentou com a bolha do crédito revelando a falência do sistema económico tal como o conhecíamos até agora.
    Também a grande ilusão criada pelos políticos e difundida pela massificação dos meios de comunicação social caiu por terra. Até Barack Obama, o homem que tinha conseguido seduzir o planeta mediático, viu em dois anos nas urnas a confirmação de um povo desiludido. Com este aviso ao presidente norte-americano mais desejado e enaltecido no planeta torna-se evidente o fim de uma era de ilusão colectiva criada por políticos com uma utilização apurada de várias formas de comunicação.
    Gasto o modelo, de nada serve pois insistir na utilização das televisões, jornais e redes sociais para vender de novo a ilusão de um candidato ou governante tal como até agora se fazia. Perante a descrédito crescente não vai chegar ter razão, saber enfrentar bem as câmaras e ser o mais popular e eficaz nas redes sociais. A partir de agora para se conquistarem de novo os eleitores vai ser necessário fazer mesmo o oposto. Em vez de ilusão talvez seja altura dos que pedem votos voltarem a utilizar a franqueza da verdade, com todos os defeitos e os erros que os tornam humanos e por isso credíveis.
    E talvez para todos nós que trabalhamos em comunicação tenha chegado também a hora de assumir que afinal muita e mais rápida informação... pode ser também e só uma grande desinformação.

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    João Adelino Faria, Jornalista e ‘pivot' da RTP



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